Artigos, Bispos › 21/02/2022

Uma casa para viver

Um novo estilo de vida tem pautado o cotidiano de quem sofreu a ameaça da Covid-19 e foi obrigado a revisar seus comportamentos. O que essa nova situação não pôde extirpar, entretanto, é o desejo próprio do ser humano de ir ao encontro do outro, de conviver, de transcender. Há uma necessidade de amparo, de acolhida e aconchego que pode ser traduzida em busca de uma casa para habitar. Essa casa pode muito bem ser concebida como a comunidade de fé.

As vivências comunitárias são determinantes para cada pessoa e são transmitidas de uma geração a outra.  Quando o grupo se torna muito individualista, a transmissão da tradição fica comprometida, não se entrega às futuras gerações o que das anteriores se recebeu. A crise da comunidade só é superável se o ser humano redescobrir o valor da pertença, da solidariedade e do vínculo afetivo.

A busca de um lar de amparo e acolhida é fundamental para o ser humano não se sentir isolado e esquecido. A busca de terra, teto e trabalho, como bem indica o Papa Francisco, é uma busca de vida para a pessoa não sucumbir em sua existência. A casa, contudo, precisa se tornar lar, lugar para onde se volta após a fadiga do cotidiano e o enfrentamento dos revezes da vida. É determinante compreender uma casa não apenas como teto, mas como ambiência de vida.  Esse ideal de morar numa casa, contudo, abre a pessoa parase encontrar para além da família, encontrando na comunidade a completude dessa busca de sentido. Especialmente na religião, o encontro, a escuta e o diálogo permitem tornar a comunidade cristã um espaço privilegiado de crescimento integral a partir de uma espiritualidade.

O redescobrimento da comunidade é da essência do ser cristão e do ser Igreja. O batizado nasce para Cristo e para a salvação na comunidade e a ela se agrega de modo ativo. Essa é a forma e a condição de possibilidade para o ser cristão. Sem comunidade não há Cristianismo autêntico. Não existe fé cristã individualista, nem por livre escolha, pois sempre há a mediação do outro, dos outros.

Nas origens do Cristianismo, as comunidades cristãs fundaram-se na experiência das famílias e começaram nas casas dos cristãos. Famílias inteiras se convertiam e o espaço de suas residências servia para a celebração litúrgica (At 18,8). A família tinha um papel central na edificação da Igreja, com forte sentido de fraternidade e comunidade.

A comunidade cristã não nasce de baixo, mas do alto; de Deus que suscita o desejo no coração humano e a necessidade das pessoas de um viver comum em Cristo. Por isso na comunidade cristã se manifesta o mistério da Igreja e ela é chamada constantemente a ser missionária da obra salvífica que Cristo realiza. A comunidade cristã é a experiência de Igreja que acontece ao redor da casa. É a Igreja que está onde as pessoas se encontram, independentemente dos vínculos de território, moradia ou pertença geográfica. É a casa-comunidade onde as pessoas se encontram.

Na casa-comunidade há o chamado para todos formarem a grande família de Deus, daqueles que “ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). A comunidade se expressa na comunhão dos seus membros entre si, com as outras comunidades.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo de Santa Maria