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Uma catástrofe apenas ou um sinal?

 

É comum depois de uma grande catástrofe as pessoas se perguntarem: O que isso significa? É um sinal? Certamente diante desta devastadora enchente muitos estão se fazendo as mesmas perguntas. Evidentemente que algo assim nunca seria provocado por Deus, as causas podem ser desmatamento, poluição, agressão ao meio ambiente ou qualquer outra.  Mas será que Deus, que nos fala de muitas formas, não poderia aproveitar uma catástrofe para nos falar? Ou será que esta enchente não nos serve de sinal para que nos perguntemos como estamos cuidando da casa comum?

Talvez a história não nos responsabilizará ou nos culpará por esta catástrofe, mas com toda certeza vai nos cobrar e, com toda razão, a forma como enfrentamos e como tudo isso vai ser tomado como lição ou sinal de que urge uma mudança na forma como estamos cuidando da mãe natureza. É preciso agir, é inadmissível que a vida de um povo seja ameaçada em nome do dinheiro, do progresso. Os interesses de uma minoria não podem estar a cima da segurança e bem-estar de todo um povo.

Em tempos de grandes mudanças climáticas é inaceitável que sejamos irresponsáveis, inconsequentes. Não podemos aceitar que sejam relativizadas as orientações e alertas feitas pelos cientistas que são as maiores autoridades. “É impossível esconder a coincidência destes fenômenos climáticos globais com o crescimento acelerado das emissões de gases com efeito estufa, sobretudo a partir de meados do século XX. A esmagadora maioria dos estudiosos do clima defende esta correlação, sendo mínima a percentagem daqueles que tentam negar esta evidência”. (Laudate Deum, nº 13).

Em meio a tanta dor, tristeza, insegurança e preocupação ainda nos perguntamos: Onde foi que erramos? De quem é a culpa? Penso que agregadas a estas perguntas estão outras que são muito oportunas: Como está sendo construída a nossa civilização? O que estamos oferecendo para as nossas crianças, nossos jovens? Muitas vezes nós, pais, educadores e sociedade como um todo, acabamos dando tanto e esquecemos do fundamental, isto é, que a vida tem que ser construída em valores permanentes. O conhecimento, as coisas materiais tudo tem sua importância, mas nada substitui os valores éticos e espirituais.

O Santo Padre nos propõe o caminho de uma ecologia integral como novo paradigma de justiça; uma ecologia “que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda”. (Laudato Si, n.15). Ele nos alerta para o problema do antropocentrismo moderno (cf. Laudato Si, n. 116), que continua presente e que leva o ser humano não reconhecer sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder, levando-o assim a uma lógica do descartável que justifica todo tipo de descarte, ambiental ou humano, e que trata o outro e a natureza como simples objetos de dominação.

Se mudar é preciso sejamos os primeiros, começando por nossas paróquias. O Santo Padre nos dá uma luz: “é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade” (Fratelli Tutti, nº 86). Ou seja, o papel do ser humano na obra da criação deve ser uma preocupação constante na vida e na missão da igreja.

Estamos acompanhando as mais louváveis atitudes de altruísmo, solidariedade, empatia, sensibilidade humana e cristã. Mas passada a catástrofe, o que vai ficar? Qual será o grande aprendizado? Para toda sociedade, em especial nossos governantes, vale lembrar que os valores investidos na educação, na conscientização, na prevenção e preservação serão bem menores que os valores necessários para enfrentar uma possível catástrofe climática, sem falar daquilo que é de valor inestimável, que são as vidas dos nossos entes queridos.

 

Pe. Jair da Silva – Diocese de Bagé