Artigos, Bispos › 22/09/2020

Uma cultura da reconciliação

Nestes tempos de disputas ideológicas, sobretudo no âmbito político, com uma polarização cada vez mais forte, nos perguntamos: será que é isto que Deus quer da humanidade? A situação dramática da pandemia do coronavírus nos recorda, na prática, que de fato somos uma única família. Todos os humanos. Então, buscamos uma cultura que precisa ser construída, da reconciliação. Pensar e educar para a reconciliação. Não somente uma sociedade reconciliada, mas uma cultura da reconciliação. A polarização, que produz a lógica do poder, é um grande veneno do nosso tempo.

O primeiro pressuposto necessário para uma nova sociedade, reconciliada, é a capacidade do encontro e do diálogo. “Ao anunciar Jesus Cristo, que é a paz em pessoa (cf. Ef 2, 14), a nova evangelização incentiva todo o batizado a ser instrumento de pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada” (EG, n.239). Para que seja possível esta vida reconciliada, diz nosso Papa, “é hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos, mas sem a separar da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões” (EG, n.239). O encontro e o diálogo franco e aberto são condições para a construção da paz, fruto da reconciliação. Olhar nos olhos de outra pessoa, que pensa e age diferente, desarma a nossa teimosia. Não somos uma ideologia, temos um rosto, somos únicos. Reconciliar não é suprimir as diferenças, mas não deixar que estas tirem nossa paz. Podemos ser amigos e pensar diferente.Para o cristão, o lugar por excelência do encontro e do diálogo é a Palavra de Deus, que reúne a todos. Ela nos indica o caminho. Por que “encaixar” Jesus e seu evangelho numa ideologia, seja qual for?

O segundo ponto importante é a capacidade de perdoar. Esse é próprio do cristianismo, pois o evangelho de Jesus é o evangelho do perdão. Para curar a ferida é preciso o perdão. Ele nunca é merecido. Ele é um acréscimo à justiça. É pura graça acolhida e oferecida. Aí sim, inicia uma nova vida. Sem o perdão, não haverá a reconciliação. Recordemos o texto do filho pródigo (cfLc 15, 11ss), que não tem mérito algum a ser acolhido novamente na casa paterna. O filho mais velho não o aceita. Será que nós o aceitaríamos? Somos tão acostumados com a lógica do mérito, que não poucas vezes falamos ofensivamente dos negros, dos migrantes, dos pobres e das mulheres. Só haverá uma cultura da reconciliação, se nos educarmos a ir além do mérito, do justo, vivendo o perdão acolhedor. Normalmente, a dimensão social, própria de uma cultura, inicia com aquela educação, bem pessoal, que temos e tratamos as pessoas.

Outro elemento necessário é a reparação e os acordos. Um passo por vez e caminhando sempre. A vítima tem o direito de ter uma reparação rápida e adequada à injustiça padecida. Seu dano sofrido não deve ser esquecido, mas ter um adequado remédio. Não está aí a solução, mas está no caminho para o desfecho da paz. Parece lógico pensar que para haver uma cultura da reconciliação é preciso haver acordos de convivência em todos os níveis. Para um acordo, precisa-se “baixar as armas”, dispor-se ao diálogo, mostrar-se disponível ao diálogo e ter como possibilidade a mudança de atitudes.

Cremos e sonhamos que logo consigamos conversar sem agressões. Que as posições sejam respeitadas. Que o respeito seja aquele que sempre orienta a tomada de posição. Que nunca mais se construam muros para nos separar. Que as raças não sejam motivo para diminuir a dignidade de alguém. Que os pobres do nosso planeta sejam vistos como pessoas humanas, imagem de Deus como todos os outros. E que a reconciliação inicie com nossa postura, na casa, na comunidade, com o mais próximo.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta