Uma Igreja que acolhe: a tenda onde Deus Habita
Esta é a segunda edição da série especial de artigos na qual dom Leomar Antônio Brustolin apresenta e aprofunda as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Aprovado durante a 62ª Assembleia Geral, realizada entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, o documento propõe os caminhos e prioridades que orientarão a missão evangelizadora da Igreja no país nos próximos anos.
A imagem escolhida pelas Diretrizes para falar da Igreja é simples e profundamente significativa: uma tenda. Não um palácio, nem uma fortaleza, mas uma tenda. E isso muda completamente o modo de compreender a vida da Igreja.
A tenda é leve, móvel, aberta. Ela não se fecha em si mesma, mas acompanha o caminho. É sinal de um povo que não está instalado, mas em marcha. Assim é a Igreja: não uma realidade estática, mas um povo peregrino que caminha na história, atento aos sinais de Deus.
No Antigo Testamento, a tenda era o lugar do encontro com Deus no meio do deserto. Era ali que o Senhor se fazia próximo, não em um espaço fixo e distante, mas no coração da caminhada do povo. Essa imagem retorna com força no Novo Testamento, quando o Evangelho de João afirma que o Verbo “armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14). Em Jesus, Deus não apenas visita a humanidade — Ele vem habitar no meio dela.
Isso tem consequências profundas para a vida da Igreja. Se Deus arma sua tenda entre nós, a Igreja também é chamada a ser lugar de encontro, não de exclusão; espaço de acolhida, não de julgamento; abrigo para quem busca, não barreira para quem chega.
As Diretrizes vão ainda mais longe ao afirmar que essa tenda precisa ser alargada. Não basta manter o que já existe; é preciso abrir espaço. E isso exige conversão. Alargar a tenda significa ampliar a escuta, acolher novas realidades e reconhecer dores e esperanças que, muitas vezes, passam despercebidas.
Vivemos em um mundo marcado por muitas “tendas frágeis”: refugiados, pessoas em situação de rua, famílias feridas, jovens sem propósito, pobres esquecidos. Nessas realidades, Deus continua passando. E a Igreja é chamada a entrar nessas tendas — não de longe, mas por dentro —, levando a presença de Cristo.
Aqui está um ponto decisivo: a Igreja não é apenas um lugar onde as pessoas vêm; ela é uma presença que vai. Sai de si mesma para encontrar, acolher e cuidar. Torna-se, como dizem as Diretrizes, um verdadeiro “hospital de campanha”, onde as feridas são tratadas com misericórdia. Mas essa abertura não significa perder a identidade. A tenda é sustentada por estacas firmes: fé, esperança e caridade. Sem essas bases, tudo se torna instável. A Igreja se abre ao mundo, mas permanece enraizada em Cristo.
No fundo, a imagem da tenda nos recorda algo essencial: a Igreja não é dona de Deus, mas sinal de sua presença. Ela existe para favorecer o encontro entre Deus e as pessoas. Diante disso, cada comunidade é chamada a se perguntar: somos uma tenda aberta ou um espaço fechado? Acolhemos ou selecionamos? Escutamos ou apenas falamos?
Quando a Igreja se torna verdadeiramente tenda do encontro, algo novo acontece: as pessoas encontram não apenas uma instituição, mas uma presença. E, através dela, encontram o próprio Cristo.
+ Dom Leomar Antônio Brustolin
Arcebispo de Santa Maria e presidente do Regional Sul 3 da CNBB