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Vós sois todos irmãos e irmãs

Depois do pecado Deus faz algumas perguntas ao homem. A primeira é: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). Lendo a passagem bíblica percebemos que Adão estava desorientado porque pensou que ia se tornar poderoso, tudo dominar, ser Deus. A segunda pergunta que Deus dirige ao homem foi: “Caim, onde está o teu irmão Abel?” (Gn 4,9). O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus termina numa sucessão de erros que levam à morte, a derramar o sangue do irmão.

O texto-base da Campanha da Fraternidade nos apresenta uma profunda reflexão sobre a segunda pergunta, a qual nos alerta para a síndrome de Caim. Vivemos um tempo em que a vida, as pessoas e as relações humanas experimentam tanta agressão e ameaça. “Onde está teu irmão?” é uma pergunta para mim, para ti, para cada um de nós. Os tantos que, às vezes, para nós são apenas indivíduos, números, e aqui eu recordo especialmente os que vivem numa situação de muito sofrimento e dor, são nossos irmãos e irmãs.

O Papa Francisco recorda que na literatura espanhola, há uma comédia de Félix Lopes de Vega. Ela diz que os habitantes da cidade de Fuente Ovejuna matam o governador, mas o fazem de modo que não se saiba quem o executou. Quando o juiz lhes pergunta: “Quem matou o governador?”, eles respondem em coro: “Fuente Ovejuna, senhor!”. Ou seja, todos e ninguém.

A pergunta hoje seria: “Quem é responsável pela dor de tanta gente que vive em situações tão desumanas? Somos todos tentados a responder: “Ninguém! Eu não tenho nada a ver com isso! São os outros!”. Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna. Não é culpa nem obrigação nossa. Ficamos tranquilos, com a consciência em paz. Mas, se a culpa não é de ninguém, é porque é de todos.

“Adão, onde estás?” e “Onde está o teu irmão?” são as perguntas que Deus continua dirigindo a todas as pessoas, começando por nós mesmos. Mas infelizmente, somos atingidos hoje pelo mal da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento dos outros: ele não nos diz respeito, não nos atinge, não nos interessa, não é responsabilidade nossa. A indiferença nos tirou a capacidade de chorar, nos tornando insensíveis à dor dos outros.

A Campanha da Fraternidade sempre foi uma grande ferramenta para a nossa conversão, especialmente no tempo quaresmal. Por isso precisamos aproveitar o máximo todos os recursos que ela oferece para que de fato sejamos colaboradores no fortalecimento da fraternidade e amizade social, chamando para a consciência de que nós não somos meros robôs, máquinas, nós somos filhos e filhas de Deus, imagem do Criador. Portanto, a fraternidade faz parte da nossa própria natureza porque “somos todos irmãos e irmãs”. (cf. Mt 23,8).

 

Pe. Jair da Silva – Diocese de Bagé